Natal solidário ou solitário?

Ontem um turbilhão de fatos e sensações se passaram diante dos meus olhos e dentro do meu coração.

Artigos sobre casamento; casa incendiada ao lado do hotel; palestras sobre jogos, vida, comunicação; solitários; estudo sobre posmodernidade, relações familiares. Como fazer pra colocar uma ordem logica em tudo isso?

papai-noel-solitarioOs poucos que leem os meus ínfimos textos sabem que trabalho em um hotel aqui do outro lado do oceano (vulgo França) e que, portanto, tenho o desprazer de trabalhar feriados, finais de semana e festas comemorativas como Natal ou Ano Novo. E sozinha.

Então, ontem quando toda a família do meu marido estava comendo todas aquelas comidinhas francesas maravilhosas em uma cidade vizinha, eu estava aqui: em casa, no trabalho, na minha atual cidade vendo tudo se passar diante de meus olhos como um mero telespectador.

Não comemoro Natal, minha família nunca comemorou. Simplesmente nao vemos sentido em comemorar algo em que nao acreditamos, ponto!

No entanto, meu marido que também é ateu estava la, comemorando o Natal. Qual o seu sentido, então?

Muitos comemoram a união familiar, o prazer de estarem todos juntos ao redor de uma bela mesa com vinhos e comidas maravilhosas e presentes que querem dizer: eu amo vocês, que bom tê-los em minha vida. E eu não vejo mal nenhum nisso. Se é esse o sentido do Natal, ok.

Mas e aquele cliente que chegou ao hotel se queixando dos bombeiros e policias que haviam interditado metade da rua? Que dizia ser inadmissível bloquear o transito apenas porque uma casa fora incendiada? Ele representa bem o espirito natalino?

Ou então, aquele depressivo que me ligava do quarto 709 a cada dez minutos para me perguntar coisas realmente importantes: como ligar a tv; qual o numero de telefone do hotel, se podia ter um travesseiro extra etc etc etc. Apenas para ouvir a voz de um ser humano nem que por poucos minutos. Talvez ele represente o espirito natalino?

E aquele velhinho tao simpático que ao me pedir para lhe servir uma refeição se desculpou por me fazer trabalhar ainda mais no dia de Natal se justificando ao dizer que todos os restaurantes estavam fechados. Claro. Era Natal. Talvez ele represente o espirito natalino?

Fiquei imaginando se ele já teria tido alguém. Se ele teria filhos. Familia. Se havia perdido o amor da sua vida. Me deu um aperto no coração: “o meu volta amanhã e ele talvez nunca mais terá o prazer de estar ao lado de sua amada”. Apesar disso, ele nao estava triste, conversamos sobre viagens e ele me desejou uma boa noite (não um bom Natal) e eu também com uma grande cumplicidade.

Eu vi o verdadeiro “bom velhinho” que me mostrou que apesar dos artigos do Courrier International dessa semana* e das leituras para o meu trabalho de mestrado sobre relações familiares e educação na posmodernidade me dizerem que as relações familiares estão cada vez mais frágeis, que as pessoas nao querem se comprometer com um amor pra vida toda, eu tenho a oportunidade de experimentar essas relações.

Eu estava triste não porque sou solitária como meus dois personagens que talvez nao tenham mais ninguém em suas vidas. Mas porque hoje mesmo tendo duas famílias lindas que não acreditam no Natal (nao como nascimento de Jesus) e que estavam jantando juntos, cada uma em seu continente comigo dentro do coração, eu não podia estar em nenhum dos dois lugares.

E ai, vem a ultima questão do dia: por que eu e tantos outros comerciantes estávamos trabalhando? Talvez porque o dinheiro valha mais do que tudo nesse mundo capitalista em que vivemos? Decepção

Por que fechar os hotéis, supermercados, restaurantes se terão cliente para aumentar seu numero de negócios? E quem se importa que para isso tantos atendentes, vendedores, recepcionistas, garçons têm que sacrificar momentos que deviriam ser voltados para a família, para os amigos, para a vida?

Sera que se o Natal fosse mesmo para comemorar o aniversario de Jesus, que o espirito natalino fosse um espirito de solidariedade, nao poderíamos abrir mão de ir ao supermercado nessa data, ao restaurante, comprar milhões de presentes para os filhos que nem dão mais valor pra tanta tralha? Isso sem falar em ser solidário com os que nem um prato de comida ou um cobertor quente têm nessa época (questões muito mais validas do que a minha).

Apesar de tudo isso, “egoisticamente” tenho um balanço positivo para o dia 24 de dezembro no qual me vi jantando virtualmente com a minha família em torno de uma mesa onde não havia presentes, não havia ceia de Natal, nem arvores ou pisca-piscas, apenas uma família feliz por estar reunida.

*Courrier international é uma revista que reúne e traduz artigos do mundo todo. Esta revista em forma de jornal a cada semana tem um tema central, no caso da ultima edição: o casamento.

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