Natal solidário ou solitário?

Ontem um turbilhão de fatos e sensações se passaram diante dos meus olhos e dentro do meu coração.

Artigos sobre casamento; casa incendiada ao lado do hotel; palestras sobre jogos, vida, comunicação; solitários; estudo sobre posmodernidade, relações familiares. Como fazer pra colocar uma ordem logica em tudo isso?

papai-noel-solitarioOs poucos que leem os meus ínfimos textos sabem que trabalho em um hotel aqui do outro lado do oceano (vulgo França) e que, portanto, tenho o desprazer de trabalhar feriados, finais de semana e festas comemorativas como Natal ou Ano Novo. E sozinha.

Então, ontem quando toda a família do meu marido estava comendo todas aquelas comidinhas francesas maravilhosas em uma cidade vizinha, eu estava aqui: em casa, no trabalho, na minha atual cidade vendo tudo se passar diante de meus olhos como um mero telespectador.

Não comemoro Natal, minha família nunca comemorou. Simplesmente nao vemos sentido em comemorar algo em que nao acreditamos, ponto!

No entanto, meu marido que também é ateu estava la, comemorando o Natal. Qual o seu sentido, então?

Muitos comemoram a união familiar, o prazer de estarem todos juntos ao redor de uma bela mesa com vinhos e comidas maravilhosas e presentes que querem dizer: eu amo vocês, que bom tê-los em minha vida. E eu não vejo mal nenhum nisso. Se é esse o sentido do Natal, ok.

Mas e aquele cliente que chegou ao hotel se queixando dos bombeiros e policias que haviam interditado metade da rua? Que dizia ser inadmissível bloquear o transito apenas porque uma casa fora incendiada? Ele representa bem o espirito natalino?

Ou então, aquele depressivo que me ligava do quarto 709 a cada dez minutos para me perguntar coisas realmente importantes: como ligar a tv; qual o numero de telefone do hotel, se podia ter um travesseiro extra etc etc etc. Apenas para ouvir a voz de um ser humano nem que por poucos minutos. Talvez ele represente o espirito natalino?

E aquele velhinho tao simpático que ao me pedir para lhe servir uma refeição se desculpou por me fazer trabalhar ainda mais no dia de Natal se justificando ao dizer que todos os restaurantes estavam fechados. Claro. Era Natal. Talvez ele represente o espirito natalino?

Fiquei imaginando se ele já teria tido alguém. Se ele teria filhos. Familia. Se havia perdido o amor da sua vida. Me deu um aperto no coração: “o meu volta amanhã e ele talvez nunca mais terá o prazer de estar ao lado de sua amada”. Apesar disso, ele nao estava triste, conversamos sobre viagens e ele me desejou uma boa noite (não um bom Natal) e eu também com uma grande cumplicidade.

Eu vi o verdadeiro “bom velhinho” que me mostrou que apesar dos artigos do Courrier International dessa semana* e das leituras para o meu trabalho de mestrado sobre relações familiares e educação na posmodernidade me dizerem que as relações familiares estão cada vez mais frágeis, que as pessoas nao querem se comprometer com um amor pra vida toda, eu tenho a oportunidade de experimentar essas relações.

Eu estava triste não porque sou solitária como meus dois personagens que talvez nao tenham mais ninguém em suas vidas. Mas porque hoje mesmo tendo duas famílias lindas que não acreditam no Natal (nao como nascimento de Jesus) e que estavam jantando juntos, cada uma em seu continente comigo dentro do coração, eu não podia estar em nenhum dos dois lugares.

E ai, vem a ultima questão do dia: por que eu e tantos outros comerciantes estávamos trabalhando? Talvez porque o dinheiro valha mais do que tudo nesse mundo capitalista em que vivemos? Decepção

Por que fechar os hotéis, supermercados, restaurantes se terão cliente para aumentar seu numero de negócios? E quem se importa que para isso tantos atendentes, vendedores, recepcionistas, garçons têm que sacrificar momentos que deviriam ser voltados para a família, para os amigos, para a vida?

Sera que se o Natal fosse mesmo para comemorar o aniversario de Jesus, que o espirito natalino fosse um espirito de solidariedade, nao poderíamos abrir mão de ir ao supermercado nessa data, ao restaurante, comprar milhões de presentes para os filhos que nem dão mais valor pra tanta tralha? Isso sem falar em ser solidário com os que nem um prato de comida ou um cobertor quente têm nessa época (questões muito mais validas do que a minha).

Apesar de tudo isso, “egoisticamente” tenho um balanço positivo para o dia 24 de dezembro no qual me vi jantando virtualmente com a minha família em torno de uma mesa onde não havia presentes, não havia ceia de Natal, nem arvores ou pisca-piscas, apenas uma família feliz por estar reunida.

*Courrier international é uma revista que reúne e traduz artigos do mundo todo. Esta revista em forma de jornal a cada semana tem um tema central, no caso da ultima edição: o casamento.

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Homesick

Para uns sonho significa o que se almeja alcançar: uma casa na praia, um carro novo, uma viagem a Paris. Ja para outros, sonho é algo mais palpável: o almoço do dia anterior, as ferias do ano passado, a vida que esta tendo ao lado de quem ama. Mas para todos também é algo que vem nos visitar durante a noite ou dia quando estamos, ao mesmo tempo, distantes e próximos da realidade.

Alguns acreditam que podemos interpretar os sonhos, Freud mesmo tem uma longa literatura sobre isso, outros acham que ha muito de premonição. Seja la o que o sonho significa, para mim atualmente é onde me vejo próxima de pessoas tao queridas que estão distantes.

Ja tive encontros com minhas irmas, amigas… essa semana passei horas conversando com a Denise. Ja participei de festas de família. Fui visitar a Fernanda na Austrália.

E ontem, durante a noite, banhado por um Sol tao reluzente eu e minha mãe visitávamos um museu onde havia uma exposição de fotos da minha infância. Enquanto minha mãe ia recuperando as fotos não compreendendo como elas haviam parado ali sem sua autorização, eu as ia observando.
Me encantei com uma delas, meio narcisista, achei aquela Daniela ao lado da irma tao bonitinha que fui chegando mais perto para observar a foto. E ao me aproximar a foto se transformou. Ja não era mais eu e a Juliana em nossa infância, era a Ana Paula e o Gabriel ainda bebes.
O incrível e que o Gabriel, que estava em um rio translucido, ganhava vida e afundava no fundo do rio e em seguida emergia novamente. Ao sair da água sorria para mim com um sorriso tao puro e inocente.

Eu não sei o que Freud diria, mas o que eu digo é que os sonhos me transportam para outra realidade, me fazem acordar no meu antigo quarto na casa dos meus pais, sentindo a presença da minha irma na cama ao lado. Sonhos que me deixam em estado paradoxal: feliz por ter de quem sentir saudade, e triste por senti-la.

Um dia alguém me disse que ao deixarmos nossa realidade em busca de sonhos nunca mais nos sentimos completos em lugar algum, sempre vai nos faltar algo. Talvez seja, então, essa a significação de meus sonhos: a tentativa de unir duas realidades eliminando esse espaço vazio, digo, esse espaço cheio de saudades dentro do meu coração.

Post escrito em dezembro 2011.

“Homofobia se aprende, sexualidade não.”

Esses dias vi uma discussão no facebook sobre uma foto de dois garotinhos (do mesmo sexo) que se beijavam. Alguém que gostaria de iniciar uma discussão sobre a homofobia a teria postado. Essa mesma foto seria usada pelo MEC em uma campanha com o mesmo proposito.
Ontem um colega, sim: homessexual, postou um texto em resposta a possibilidade da criação do dia do “orgulho hetero”, que segundo Kassab não incentivaria a homofobia. E hoje, um pouco atrasada, fiquei sabendo da agressão contra pai e filho corrida por terem sido considerados um casal homo-afetivo.
Sou contra qualquer tipo de violência e discriminação e não posso deixar de achar absurdo pessoas serem consideradas inferiores seja pela cor da pele, gênero, nacionalidade, orientação sexual etc. Acredito que possamos ter os nossos julgamentos e até, no limite, não aceitar certas diferenças no âmbito pessoal ou afetivo, mas apesar disso devemos respeitar a todos indiferentemente de nossas opiniões preconceituosas.
E além do mais, devemos também refletir sobre os motivos que nos faz discriminar o “diferente”. Preconceitos em sua maioria advêm ou da incompreensão ou da herança de uma sociedade injusta.
Não posso negar que ao ver a foto dos dois garotinhos tive um sentimento de estranheza como primeiro impacto. Mas em seguida procurei entender a minha reação para poder me posicionar sobre ela.
Ao ler os comentários acreditei por um instante que essa estranheza se devesse, como muitos alegaram, a utilização de crianças com uma conotação sexual. Mas logo em seguida me lembrei de tantos comerciais e cenas de crianças de sexo oposto em demostrações afetivas. Então, logo em seguida, busquei imagens para confirmar o que suspeitava: as observei com muito mais naturalidade.
Somos expostos a demostração de carinho entre meninos e meninas desde sempre, então, achamos isso natural.
Nunca me considerei homofóbica, convivo naturalmente com relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, e mesmo assim a exposição dessa afetividade entre crianças me causou certa estranheza (infelizmente não consigo encontrar palavra melhor). Dessa forma, posso compreender que as pessoas tenham uma certa resistência a se adaptar e aceitar o que fora considerado “errado” ou até mesmo doença por tanto tempo.
Para todos que são estigmatizados exige-se sempre muita batalha na conquista de seus espaços e direitos. Assim como foi e ainda é para as mulheres desconsideradas como cidadãos na Grécia antiga e para os negros considerados inferiores por tantos séculos e que ainda sofrem muitos preconceitos.
No entanto, apesar de qualquer sentimento contraditorio ou necessidade de adaptação para aceitar o “diferente” ainda não consigo compreender os motivos que levam pessoas a cometerem atos tão bárbaros como no caso da agressão contra pai e filho.
Não consigo compreender que em um pais com tantos problemas sociais ainda precisemos ouvir discussões absurdas como a criação do dia do “orgulho hetero” ao invés de discussões para erradicar a pobreza, o analfabetismo, a violência. Que exista pessoas que acreditam que amar pessoas do mesmo sexo é um problema para sociedade, mas que tantas situações de desrespeito com a população são aceitas cotidianamente.
Presenciar atos de afetividade choca, mas atos de violência tem se tornado cada vez mais comuns e banalizados. Infelizmente!

Você quer trocar um rim por um Ipad: SIM!!!

Na semana passada todos comentavam o caso bizarro de um chinês de 17 anos que vendera seu próprio rim para poder comprar um Ipad. Logo que soube da notícia o que me veio em mente foi aquele antigo programa de televisão onde um participante entrava em uma cabine com isolante acústico dentro da qual via apenas uma luz apagada, ao vê-la se ascender deveria dizer sim ou não. Enquanto isso no palco o apresentador (Silvio Santos) mostrava duas opções pelas quais ele deveria escolher apenas pela indicação da luz sem saber o que estava escolhendo. As vezes, as pessoas trocavam coisas bizarras como uma super bicicleta por um abacaxi.
Tenho tentado entender o que acontece no nosso mundo moderno, moderno líquido, pós-moderno, contemporâneo, seja lá qual definição empregar para o momento atual. Tenho lido diversos escritores e assistido diversas palestras, mas quanto mais estudo o tema mais confusa eu fico. Às vezes acho que estou chegando a uma conclusão e de repente tudo fica mais confuso, mais complexo demandando ainda mais reflexão.


Esse fato, no entanto, confirma um pouco os caminhos que tenho percorrido: a importância que damos a determinadas coisas que deveriam ser consideradas desnecessárias em detrimento a outras tão importantes.
A que ponto uma sociedade doente gera indivíduos que são capazes de vender seus próprios órgãos para adquirir coisas tão superficiais. Ok… um Ipad pode ser bacana embora eu nem saiba ao certo para que serve. Mas a ponto de achá-lo mais importante que um órgão vital…
A todo momento me vejo nesse programa de televisão que propõem as coisas mais engraçadas: você quer trocar uma viagem dos sonhos por um tratamento contra celulite? Sim. Você quer trocar o convívio com seus filhos para poder comprar mais sapatos, bolsas e roupas? Sim. Você quer trocar apenas um sábado à noite para ajudar seu melhor amigo ou irmão? Não.
Para Zygman Bauman, sociólogo polonês, os cidadãos transformaram-se em indivíduos, ou seja, a grosso modo deixaram de pensar no bem-comum para pensarem apenas em si próprios.
Esse fenômeno muito conhecido como a individualização seria uma consequência da emancipação dos seres humanos. Essa emancipação é bastante complexa para ser explicada em poucas palavras, então sugiro a leitura do livro Modernidade Líquida .
O que posso adiantar é que essa indiviualização tem como uma de suas características a liberdade conquistada pelos seres humanos em fazerem suas próprias escolhas, sentindo-se perdidos por não saber o que escolher.
Além disso para esse filósofo, um tanto radical, a vida pública não é mais o sentido do “bem comum e dos príncipios da vida”, mas apenas um necessidade de “fazer parte da rede”. Apenas expor suas vidas privadas em meios públicos, mas não mais se engajar por melhorias nas esferas públicas de fato.
Sendo assim não é de se estranhar a prioridade dada a esse jovem chinês em obter um Ipad.
Antigamente considerávamos como heróis homens que lutavam e até mesmo entregavam suas próprias vidas em prol de um “causa, hoje muitos desperdiçam suas energias adquirindo artigos que perderão seus valores junto com o próximo lançamento.

Animal Kingdom

Tive um final de semana agitado e na segunda estava meio cansada, mas mesmo assim aceitei o convite de ir ao cinema assistir ao filme Animal Kingdom.

Uma colega aqui de Orléans me convidou porque ela sabia, que como ela, eu também morei na Austrália, mas especificamente em Melbourne, cidade onde desenrola a trama do filme.

Antes de ir ao cinema, como eu que não gosto de ler sinopses de filme quando ele já fora escolhido, apenas vi en passsant do que ele se tratava: drogas, família blábláblá. Ok, se o filme não for bom pelo menos reativo minhas lembranças, pensei.

A cidade de Melbourne é pouco mostrada, mesmo assim pude identificar alguns lugares e me situar quando eles discutiam sobre fatos que ocorrera aqui ou acolá. Isso acho fascinante num filme, poder identificar lugares por onde estive. No entanto, esse drama com toques policiais ou vice-versa é suficientemente interessante para fazer com que valha a pena sair nas ruas desertas de segunda à noite.

Os personagens são circulares: personagens com uma boa carga psicológica, personagens que não tem nem começo nem fim, mas que estão em transformação, em construção. Um bom exemplo é o caso do jovem protagonista desse filme que vive no meio de uma familia conturbada, jovem este que se vê obrigado a fazer importantes escolhas, fazendo com que sua personagem ganhe mais peso e dramaticidade.

Enredo a parte, o que me fez refletir no caminho de volta para casa é como a violência gerada pelas drogas nessa grande cidade da Australia é vista e as diferenças comparadas a minha cidade natal: São Paulo.

Morei em Melbourne por pouco mais de um ano e em alguns momentos me deparei com pessoas que diziam que ela era uma cidade perigosa. Eu e todos os brasileiros pensavámos que evidentemente essas pessoas não conheciam ou não sabiam o que era a violência ou o perigo. Voltar para casa por volta de 3 da manhã sozinha e a pé foi algo que fiz diversas vezes; deixar sua carteira ou bolsa sejá la onde for terá grande chances de não ser roubada; ao deixar seu carro sem seguro a noite inteira estacionado na rua, correrá o risco de encontrá-lo exatamente como o deixara.
E claro que não é uma cidade perfeita e que violência existe em todo lugar, mesmo que a cidade seja considerada segura. Apesar de existir eu nunca presenciei ou tive qualquer problema por lá, mas a questão do tráfico ainda me intriga.

Como em todo lugar do mundo, as pessoas, por lá, também fazem uso de drogas, acredito que até mais do que no Brasil, ou ao menos em São Paulo, mas para mim que sempre acreditou que seu uso gera violência social me vejo obrigada a rever conceitos. Tanto em Underbelly (série que trata do tráfico de drogas em Melbourne), como em Animal Kingdom vemos que o problema existe, mas, felizmente, ao menos na minha compreensão ele não chega tão próximo aos que dele não fazem parte, ou seja, aqueles que não tem nenhuma relação com o tráfico de drogas.

Posso estar completamente enganada, mas se não estiver ele não desenvolve a violência social primeiramente porque não existe miséria nessa cidade, dessa forma meninos cada vez mais jovens não vêem no tráfico uma possibilidade de “vencer” na vida; e além disso, em geral; as pessoas podem pagar por suas drogas já que possuem um grande poder aquisitivo em sua maioria, com isso eliminando o problema das “mortes por dividas” e de assaltos com o intuito de angariar dinheiro para “alimentar o vicio”.
Sendo assim a violência é mais centralizada entre traficantes e policiais, mas, infelizmente, também alcançando algumas pessoas que por azar ou por más escolhas estão no lugar errado e na hora errada como nos mostra o filme.

Já em São Paulo vemos todos os dias os estragos que o tráfico de drogas faz em nossa sociedade e em todas as camadas, mesmo que de maneira e intensidades diferenciadas.
Não quero fazer apologia a drogas, mesmo porque existem outros problemas relacionados, mas o problema da nossa violência social talvez não esteja tão associado às conseqüências do tráfico em si, o problema é muito mais complexo e difícil de resolver.
Não podemos nos iludir com a idéia já bastante utópica de que ao eliminar ou legalizar as drogas, a violência desaparecerá como um toque de mágica. E preciso solucionar antes de tudo problemas como a miséria, que apesar de discursos otimistas ainda existe; melhorar a qualidade da educação e da saúde, diminuir a enorme desigualdade social que existe e aumenta a cada dia em nosso pais e, principalmente, com a corrupção.

Não sou otimista, apesar de ouvir por pessoas de tantas nacionalidades que o Brasil agora sim “é o pais do futuro”, ainda olho com olhos criticos e desconfiados. Ainda não acredito que conseguiremos acabar com todos esses problemas simplesmente por presidir a copa ou olimpíada. Que por ter bolsas-familias (que fique claro não sou contra) o povo brasileiro saira da miséria. Tudo isso ainda me remete a uma política antiga intitulada “pão e circo” ou “panem et circenses” em latim pra ficar mais chique.

Um dos mundos de Dani ou O mais novo mundo de Dani

Começo a escrever este novo post e ainda não sei ao certo qual caminho ele seguirá. As idéias ainda pululam em meus neurônios de maneira desordenada.
Acabo de voltar do feriado de Páscoa com a familia do meu “namorido” em um vilarejo tipicamente francês. O que isso significa? E exatamente isso o que eu tentarei explicar, ainda que de maneira superficial.

Gare d’Orléans

Antes de partir para uma viagem sempre estou super excitada e um pouco estressada: será que vou me divertir?; quantas belas coisas verei?; irei conhecer pessoas interessantes? etc etc etc

Dessa vez ainda tinha a familia e os amigos de infancia do Damien para conhecer e uma vontadizinha de estar dentro daquele trem para encontrar minha familia e meus amigos.
Passado o estresse inicial tive um final de semana prolongado muito agradável, campestre e gastronômico que me deixa ainda sem saber ao certo como descrevê-lo.

Sendo assim, vou descrever uma das experiências interessantes que tive por lá: mais de quatro horas para fazer uma refeição.
Isso foi algo que me surpreendeu. Sentamos à mesa no jardim da casa do pai de meu “namorido” por volta de meio dia e meia. Ao chegar à mesa fomos servidos com o aperitivo inclui bebidas : kir, (vinho branco com creme de frutas, geralmente de cassis), Whisky, rum entre outras, e comidinhas como canapés, salgadinhos. Salgadinhos que mesmo as crianças podem comer antes do almoço e do jantar, ouviu mamãe?.  Claro que eu não tinha ideia do que estava por vir e como estava morta de fome me servi generosamente.
Passado mais de uma hora entramos para a sala de jantar onde almoçaríamos uma salada diferente a base de trigo, além de aspargos, tomates e pão: ahãn descobri porque as francesas são magras, logo pensei :  Interessante, eles são super saudáveis!
Fim da refeição, ok poderia comer um pouquinho mais… um pouquinho!

Mas o que eu pensava ser o almoço era apenas a entrada, teria não apenas um pouquinho mais, mas sim um barbecue (churrasco francês, normalmente sem carne de boi). Tudo bem! Eu adoro churrasco mesmo que seja de frango e de linguiça de carneiro (argh). Tudo muito bom, acompanhado de vinho francês. Exatamente, churrasco com vinho e um tipo ou cor diferente para cada etapa da refeição.
Já quase dormindo e explodindo com os efeitos do álcool e de tanta comida eu estava, digamos, um pouco aliviada ao final da maratona gastronômica. Iríamos “apenas” comer o bolo que compramos para o aniversário de Damien e voila.
Junto com meu pensando, seu pai entra na sala novamente e meus neurônios entraram em colapso: o que ele está fazendo com esses queijos? cadê o bolo? Para os que não sabem, franceses adoram queijo e comem entre a refeição e a sobremesa. Eu que também adoro queijo e que não queria fazer feio no primeiro almoço em família me servi de um pequeno pedaço e comecei a degustá-lo quando… ela come queijo puro, sem pão? Sorri e peguei também um pedaço de pão.

Devo confessar que comer o bolo de aniversário, em seguida, foi uma tortura… Quando acabamos o cafezinho, Damien me previniu (ja era mais de cinco da tarde) que deveriamos nos arrumar para ir à festa de um de seus amigos que já estava prevista: um jantar.

Chegamos na festa por volta das 19 horas e lá estava o aperitivo : um pouco de bebida? canapé de fois gras? (ahhhhhhhh tira essa gordura de pato daqui)!!!

Comecei a me questionar quantos pratos teríamos nesse tal jantar e dosei bem o que bebia e o que comia. Quando chegou o primeiro prato que era algo comparado a uma feijoada: quatro tipo de carnes como um ensopado, legumes, semola…

Cuscuz“Damien, essa é a entrada?” – Ah… nao, será apenas um prato. “Ufff”.
Como ele sabe? Quando ele vê o primeiro prato ele descobre quantas fases terá a refeição. Em seguida, torta de sobremesa. Dessa vez foi fácil!
Depois de umas cinco refeições durante todo o feriado acho que aprendi: sempre perguntar disfarçadamente o que virá. Isso é claro se eu quiser conseguir sair da mesa ou não ter que fazer uma sesta.

Descobertas gastronômicas a parte,  acho que precisarei de um pouco mais de reflexão introspectiva para racionalizar a sensação de conhecer os vilarejos de mil habitantes onde meu marido cresceu e viveu até sua juventude. Para aqueles que moram na Grande São Paulo, acho que não preciso explicar o quanto isso é inimaginável.

Como será viver em um lugar com tão poucas pessoas, mas que tem castelos ao redor? Uma Igreja que parece que saiu de um filme medieval? Onde as pessoas são simples, as vezes tem empregos humildes, mas mesmo assim podem viver suas vidas de maneira decente? Como enquadrar aquelas pessoas tão amáveis dentro do esteriotipo do francês arrogante? Como enquadrar a idéia de que os franceses são xenófobos, racistas em pessoas que me acolheram de uma maneira tão acalorada e sem preconceitos ou discriminações? Mas se eu fizesse parte do Magreb? Ou se tivesse a pele mais escura? Me aceitariam?
Bom… isso eu nao posso saber e será sujeito de discussão futura. O que sei é que meu mundo se torna cada vez maior, maior e maior e mais surpreendente.

Por que criar um blog?

Adoro perguntas… E adoro respostas. Mas do que mais gosto é do momento que se passa entre uma e outra. Quantas coisas podem se passar em frações de segundos antes de obter uma ou outra.

Aos 17 anos me sentia incapaz de escrever, em algum momento houve um bloqueio dentro de mim que me impedia de me expressar através da palavra escrita. Em um outro momento, aos 12 anos de idade, ganhei um concurso de melhor redação na escola e até hoje procuro aquela garota que podia usar sua criatividade para escrever um pequeno conto, meio fantástico.

Onde estará ela? Apenas perdida no meu nome?

Decidi deixar de ser ela pra me tornar Dani. Por quê?

Talvez porque, arrogantemente, hoje me ache capaz de procurá-la dentro de mim. Ou talvez porque alguém me deu o incentivo e a coragem de me expor a críticas ou ao anonimato de escrever apenas para mim mesma:

(Alguém) “Você pensa demais deveria escrever”

(Eu) …

(Alguém) “Como não sabe? Ja tentou?”

(Eu) Não, eu nunca tentei! Eu nunca mais tentei!

Por que temos tanto medo de errar? De fazer algo que achamos que não somos capazes? Por que não ousar pra de repente descobrir novos talentos (ou não), mas ao menos buscar novas experiências?

Eu não sei. Ainda estou nas reticências, procurando respostas para tantas questões. Mas essa resposta eu obtive: por que não?